Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
O modelo dos socialistas


Quando os socialistas falam do Estado do bem-estar como uma conquista civilizacional, sabem que a maioria dos cidadãos europeus concorda com eles

Dezenas de membros de partidos socialistas europeus estão, a partir de hoje, no Porto a discutir o seu mais adorado objecto de desejo ideológico: o modelo social europeu. Conclaves como o que se anuncia têm sempre o condão de conciliar a retórica com o turismo, o convívio com a partilha, o discurso programático com a conversa de circunstância, ou seja, não servem para grandes desígnios. Mas, ao dedicarem o ponto central de um congresso ao modelo social europeu e não à tensão com a Rússia, ao mais uma vez adiado alargamento à Turquia ou à explosiva situação no Médio Oriente, os socialistas jogam pelo seguro. Apesar de estar sujeito a enormes pressões, o modelo social europeu é um produto que vende bem. Mesmo não sendo uma criação exclusivamente socialista (os conservadores britânicos e os democratas-cristãos foram também responsáveis pela sua instituição e desenvolvimento), os PS europeus sabem que não têm à mão melhor bandeira eleitoral para conquistarem ou se consolidarem no poder do que a da insistência na protecção social garantida pelo Estado.
É fácil de perceber porquê. Entre a exclusiva responsabilidade individual e a mão protectora da providência estatal, entre a dependência da sorte ou do azar e o conforto de um nível mínimo de previsão no quadro da vida de cada um, não parece haver dificuldade em optar. Quando os socialistas falam do Estado do bem-estar como uma conquista civilizacional, sabem que a maioria dos cidadãos europeus concorda com eles. O problema está, como sempre, entre a miragem de um modelo que se deseja e a realidade que o permite, ou não, alcançar.
Há 30 anos que o dilema se coloca e só muito recentemente os socialistas, em Portugal ou na Alemanha, ou no Reino Unido - Ségolène Royal dirá se também na França -, foram capazes de perceber que a protecção social só se garante se houver coragem para prescindir dos anéis para conservar os dedos. Ou seja, quando quem governa é capaz de fazer reformas no modelo que tanto se quer conservar. E, para o fazerem, os socialistas tiveram de vender a alma ao capital: perceberam que o sucesso capitalista é um aliado que fornece recursos e não o covil dos inimigos de classe que urge a todo o custo meter na linha.
A revisão programática, que deixou pelo caminho o pleno emprego ou a tutela da economia, está, porém, longe de se esgotar. A globalização abre novos desafios, a dinâmica demográfica mantém as suas ameaças e a tese segundo a qual a igualdade é um mito e o que importa é garantir as mesmas oportunidades para todos os cidadãos, seja no acesso à saúde ou à educação, continua sem produzir resultados entusiasmantes. O congresso do Porto tem, por isso, muito para discutir.
Apesar de todas as questões em aberto, se os socialistas fazem questão de venerar tão recorrentemente o modelo social do qual se consideram pais fundadores, é porque, no essencial, o modelo parece capaz de resistir aos novos desafios da economia global. Enquanto houver casos como os da Finlândia a servir de farol, os congressos socialistas terão sempre ao dispor um modelo para discutir com amenidade.



publicado por psylva às 09:08
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