Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
...
Ainda vamos a tempo

Já se sabe que as obras públicas estão sempre sujeitas ao efeito consecutivo de um multiplicador comum: primeiro, surgem os estudos de consultores competentíssimos, que indicam um orçamento inicial. Na elaboração dos cadernos de encargos, esse orçamento é multiplicado até se chegar à base de licitação. Adjudicada a obra, os "trabalhos adicionais" imprevistos e não orçamentados multiplicam novamente o valor pelo mesmo factor. Quando a factura chega ao conhecimento do público, a culpa não é de políticos nem técnicos, porque há muito que morreu solteira.
As obras faraónicas anunciadas por este Governo já entraram nessa espiral. No caso da Ota, sabe-se que custará muito mais do que as previsões e não vai ficar "de borla" para o Estado, que deixará de receber os importantes lucros que tem hoje com a Portela. Já se adivinha que a futura parceria pública/privada vai incluir o Aeroporto do Porto (não vá este tornar-se num temível concorrente) e será confundida e misturada com a privatização da ANA. Para cúmulo e como as inundações alagaram a zona de leito de cheia que será abrangida pelo aeroporto, cresce a dúvida se o estudo de impacte ambiental caucionará a gigantesca obra de terraplenagem. Entretanto, a ANA resolveu investir no plano de expansão da Portela, que será realizado até 2010 e custará 550 milhões de euros (antes do tal multiplicador comum...), que depois serão deitados fora em 2017 quando o aeroporto, que entretanto estará ligado ao metro, for demolido para ser substituído pela Ota...
Mas as novidades não ficam por aí. Lembram-se da nove ponte ferroviária entre Lisboa e o Barreiro que, segundo o Governo, devia servir para os TGV destinados a Madrid e ao Algarve e também para o do Porto e para as "navetes" do aeroporto da Ota, que entrariam em Lisboa pelo sul? Afinal, os últimos estudos mostram que a elevada duração destes dois trajectos exigirá a construção de um novo e caríssimo canal de entrada em Lisboa pelo lado norte...
Com tantas "surpresas", deviam-se repensar e articular os projectos ferroviários e aeroportuários. Desde logo, é preciso "casar" os estudos de procura (que foram elaborados em separado...) porque é certo que a rede de TGV vai arrefecer a procura do transporte aéreo em 20 por cento. Em segundo lugar, deve ser reavaliada a opção "Portela + 1", que passa por ampliar o aeroporto existente e desenvolver um outro, secundário para as low cost, por exemplo na base aérea do Montijo. Essa solução foi rejeitada para Lisboa (apesar de ter sido adoptada em muitas capitais) com o argumento de que com dois aeroportos não se conseguem economias de escala. Ora, não serão essas economias muito menores do que os exorbitantes custos associados à opção Ota?
Uma coisa parece evidente: a opção "Portela mais Montijo" justificaria que, em vez da ponte do Barreiro e do novo canal a norte, se concentrasse todo o tráfego ferroviário por uma travessia a montante, exactamente na zona do Montijo. Teríamos então um sistema integrado, com uma nova rede ferroviária (sem navetes...) a ligar todos os nossos aeroportos...
Com menor pompa e circunstância e maior realismo, talvez ainda se vá a tempo de evitar grandes asneiras...


publicado por psylva às 09:09
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds