Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
Os Planeadores
A maior parte das pessoas assume que pode haver um plano para a solução dos vários problemas de uma sociedade. Em particular que pode haver um plano que desenvolva um país ou que melhore a sua prosperidade.
Porém, esta utopia apelativa esbarra com a evidência histórica de que raramente houve um plano que tenha trazido prosperidade a qualquer sociedade. A verdade é a de que não existe uma explicação satisfatória para os níveis de bem estar atingidos pelos diversos países.

Surgem com frequência propostas de explicação que atribuem à qualidade das instituições, à educação, ou à visão de certos governantes o elevado grau de prosperidade de certos povos. Eu acredito que todos estes factores são importantes. Mas dificilmente se comprova que se pode desenhar um plano que manipule esses factores de forma a criar um desempenho económico superior (talvez com a honrosa excepção do Japão a seguir à segunda guerra mundial, mas com consequências dúbias a longo prazo).

Sendo assim, porque é que tantos continuam a acreditar que se pode planear o desenvolvimento de uma sociedade?

Talvez uma das principais razões seja a dificuldade em compreender como de facto funciona a sociedade. Como a maioria das pessoas não compreende o modo como o mundo funciona são sensíveis a que planeadores visionários lhes expliquem o que se pode fazer para desenvolver a sociedade.

Uma das descobertas mais desvalorizadas é a importância da liberdade de escolha propiciada pelos mercados no desenvolvimento de uma sociedade. A ideia da mão invisível é de facto uma ideia poderosa. No essencial essa ideia diz que a prossecução do bem comum e do bem individual são conciliáveis, mas também que não é necessário que haja uma autoridade que diga às pessoas o que devem comprar ou vender no seu dia-a-dia.

A complexidade do funcionamento da sociedade reside no facto de todos os dias serem tomadas milhões de decisões independentes por milhões de pessoas diferentes. Como é que alguém conseguirá planear isso?

O mercado é em certo sentido profundamente democrático e transparente (desde que haja liberdade e ausência de coerção ou violência), e é isso que incomoda os planeadores. Além disso trata com naturalidade as diferenças entre as pessoas quer as que resultem dos seus gostos quer as que resultam das suas competências. E dessa forma adapta-se de forma natural à cultura de cada povo e mesmo à diversidade cultural. E convive com instituições jurídicas ou tradições muito diferenciadas. Ou seja, não é preciso mudar de cultura, língua ou religião para que a mão invisível do mercado funcione (mesmo os que acreditam que certos sistemas jurídicos são superiores não advogam a sua mudança como solução para o desenvolvimento).

Para a maior parte dos economistas, a capacidade do mercado de produzir boas alocações de recursos na sociedade é óbvia. Porém, esta é uma ideia alienígena a muitas outras disciplinas académicas ou profissões. Outras disciplinas adoptam um grau de controle sobre o seu objecto de estudo que não existe quando se estuda a sociedade humana no seu todo.

Não decorre do que escrevi até aqui que em muitos casos as soluções não envolvam um grau elevado de cooperação entre as pessoas. Por exemplo uma empresa resolve problemas (produz bens ou serviços) que uma pessoa isolada não conseguiria resolver. As grandes empresas do mundo resolvem certamente muito bem um qualquer problema da sociedade. De outra forma não sobreviveriam.

Da mesma maneira, às vezes é preciso coordenar as acções de quase toda a gente. Nesses casos, uma entidade como o Estado pode ser o veículo de coordenação adequado para resolver um dado problema da sociedade. Pessoas razoáveis podem discordar sobre quais os problemas que devem ser resolvidos ao nível do Estado, ou mesmo se certos factos devem ser considerados um problema.

Porém, mesmo numa sociedade em que o sistema político seja extraordinariamente centralizado e forte continua a haver muitas decisões (provavelmente as mais importantes para o bem estar das pessoas) que são tomadas de forma descentralizada fora da esfera do Estado. É por isso que, no campo das hipóteses, qualquer bom plano para desenvolver um país deveria ser baseado numa boa compreensão do modo como o resto da sociedade iria reagir a esse plano.

Raramente os planeadores ou os planos passam este teste. Paradoxalmente, a sucessão de planos falhados leva os planeadores a concluir que o seu plano original não era bom. Rapidamente começam a trabalhar num novo plano. Uma outra conclusão possível é a de que não há plano bom e a que se devia confiar mais nos processos de decisão descentralizados e não coordenados.

Em qualquer caso, os planeadores podem ser muito úteis à sociedade pois são uma fonte importante de ideias e inovação. Mas é importante que os seus planos não sejam implementados por pressão no segredo dos gabinetes ministeriais. Os planeadores são uma ameaça constante à liberdade individual e económica bem como ao bom funcionamento do mercado. É por isso crucial sujeitar permanentemente os planos públicos ao sufrágio, responsabilização e transparência da democracia.



publicado por psylva às 09:11
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