Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
A crise, a China e os paradoxos do valor

Toda a gente sabe que as empresas de Portugal e Europa não conseguem resistir à China, que invade o mundo com produções baratíssimas. Assim, ou fecham ou fogem para Oriente. Mas esta coisa que todos sabem esquece um elemento muito simples e determinante: a criação económica de valor.

O conceito de valor, base da economia, é uma das ideias mais subtis e traiçoeiras da história da ciência. Foram precisos mais de cem anos, até fins do século XIX, para se definirem os seus verdadeiros contornos e mesmo hoje muitos dos que se dizem economistas continuam sem a apreender. Porque aquilo que dá valor a uma coisa não é o seu volume ou peso, a quantidade de esforço nela incorporado, o montante de capital envolvido ou a elaboração técnica da sua produção. O valor depende exclusivamente da utilidade que o público decide atribuir-lhe, do capricho do consumidor.

Pode ser algo rudimentar ou fortuito, uma mania passageira ou mesmo prejudicial, mas o valor advém apenas do que desejam as pessoas. Pagam-se milhões por telas pintadas há centenas de anos ou peças velhas de colecção. Simples pedras, como os diamantes, estão entre as coisas mais caras do mundo. Uma fama passageira dá fortunas a cantores e romancistas, até a moda mudar. A heroína e o haxixe valem muito mais que os medicamentos. O valor é o que a gente quer que seja. Esta ideia muito simples elimina graves erros contemporâneos.

Por exemplo, a China transformou-se na oficina do mundo. Os seus baixos preços de produção são imbatíveis pela concorrência. Será que ela está realmente a produzir valor e a roubá-lo ao Ocidente? Considerando apenas as quantidades envolvidas, fica-se impressionado. Mas a perspectiva da engenharia está longe de ser económica. É preciso ter em conta que aquilo que as empresas chinesas produzem constitui uma pequena parte do preço final do consumidor. De facto, as toneladas de materiais que saem dos portos chineses valem muito pouco.

Este problema é o mesmo com que os agricultores lidam há milénios. Desde a Antiguidade que se ouvem os homens do campo protestar contra a exploração dos intermediários, comparando o preço dos seus vegetais à saída da quinta com o que é pago pelos clientes. Mas estes protestos não têm em conta que o valor da peça de fruta no prato é muito superior ao que ela tinha na árvore. Transportar, acondicionar, refrigerar, distribuir, anunciar e comercializar exige muito esforço e organização, que têm de ser incorporados no custo. Os agricultores dão-se conta disso quando, procurando ultrapassar os armazenistas, colocam bancas na berma da estrada e, com grande dificuldade, escoam pequenas percentagens da sua colheita.

À medida que a sociedade se torna mais sofisticada, este elemento aumenta drasticamente a sua importância. Por que razão, entre os milhares de bonecos da loja, só um deles, e logo o mais caro, se vende em grandes quantidades? Por causa dos milhões gastos a fazer os filmes, séries televivas, videojogos e a maciça publicidade que o popularizaram, levando todas as crianças a quererem aquele brinquedo em particular. O fabrico da figurinha é exactamente igual ao de todas as outras, e isso foi o que a China recebeu. Mas, no valor que aquele bem contém, a parte física propriamente dita é mínima. Todo o resto, normalmente mais de 90 por cento do montante envolvido, foi produção ocidental.

Essa diferença fica patente a quem quer que visite os omnipresentes armazéns chineses de desconto. Por que razão os seus preços, várias vezes inferiores, não dominam totalmente o mercado? Por que motivo todos nós continuamos a comprar nas lojas normais? Precisamente porque o valor não é apenas o produto físico. Precisamos de várias outras coisas, como embalagem, design, variedade, garantias de qualidade, serviço ao cliente. Numa sociedade de informação, estes aspectos são decisivos.

Portugal e a Europa estão a perder indústrias de base para os países emergentes enquanto mais de 60 por cento da sua população activa se desvia para os serviços. Isso, que é uma evolução normal, parece um sinal muito perigoso para as mentes materialistas, que medem o valor em toneladas. Perguntam: "Quando nós só tivermos comércio, turismo e divertimentos, como podemos produzir e desenvolver-nos?" Mas se se derem ao trabalho de analisar as várias componentes do preço daquilo que compram, verão que foi precisamente para esses sectores que se dirigiu a maior parte do dinheiro que gastaram.



publicado por psylva às 09:14
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