Quinta-feira, 10 de Maio de 2007
Economia e Felicidade

O crescimento económico tornou-se o objectivo indiscutível das nações. O pessimismo português dos últimos anos resulta do nosso fraco nível de crescimento e, sobretudo, da deterioração da nossa posição relativa.
Perdemos significativamente no confronto com o resto do Mundo e, embora mais moderadamente, até na comparação com a Europa dos 15.
Numa perspectiva mais longa, os resultados são mais ambíguos. No livro "Head to Head", Lester Thurow, o então conselheiro económico de Clinton, publica uma tabela em que em que Portugal surge em 18º lugar na lista das nações com maior rendimento por habitante? no ano longínquo de 1870. Desde então, baixamos significativamente a nossa posição relativa mas, como o economista Sérgio Rebelo verificou, nos últimos 50 anos, a economia portuguesa foi a quarta com maior crescimento anual.
Será que a obsessão com o crescimento económico se justifica? Qual a relação entre riqueza e felicidade? Será a dimensão absoluta ou a relativa a mais importante?
A edição do Natal de 2006 do "Economist" cita um inquérito sobre o nível de felicidade dos americanos, para constatar que os ricos se sentem mais felizes que os pobres, resultado consistente com os cânones da teoria económica, mas que não se tem verificado qualquer progresso, desde 1972, o primeiro ano em que a questão foi colocada, apesar do enorme crescimento económico que se verificou, o que já contradiz a expectativa económica.
Há dois factores principais para esta aparente anomalia. O primeiro é identificado pela revista – o bem-estar que se extrai dos bens materiais não resulta apenas da sua posse mas da posição relativa das pessoas, sobretudo em relação às que lhes estão mais próximas. O acesso ao telemóvel não é motivo de grande satisfação quando a maioria das pessoas que conhecemos já tem um, possivelmente de gama superior. Um dos inquéritos mais interessantes conduzido junto de alunos de MBA da uma prestigiosa universidade pedia-lhes para manifestarem a sua preferência em face de dois cenários alternativos, à saída do curso: receber 100 mil dólares por ano, numa empresa em que os restantes colaboradores auferissem, 200 mil, em média; ou receber 50 mil face a 25 mil para os restantes. A maioria optou pela segunda alternativa?
O segundo motivo, talvez mais importante, resulta do impacto de bens negativos – bads – para o crescimento económico. O vício é geralmente considerado maléfico do ponto de vista social e individual – o jogo, o álcool e as drogas podem tornar-se obsessivos, conduzindo as vítimas a perder a sua capacidade de auto controlo. Porém, se o nosso crescimento está dependente do aumento da procura interna, as pessoas com maiores dependências não contribuem para o crescimento? Não obrigam os familiares e amigos a investir em terapeutas e centros de tratamento e assistência, criando empregos e gerando crescimento económico? Mais claro ainda é o impacto – positivo para o crescimento – do crime. Gera imenso mal-estar, mas leva ao aumento da procura de câmaras de vigilância, ao emprego de seguranças privados e de polícias públicos, por pressão dos eleitores, ao acréscimo de actividade de fabricantes de fechaduras, sistemas de protecção, criação e treino de cães agressivos, venda de armas de fogo, etc. A poluição e o aquecimento global criam novos mercados e fantásticas oportunidades de negócios. Dois bads tipicamente portugueses – os incêndios florestais e os acidentes nas estradas – também geram imensa actividade, criam postos de trabalho e justificam o esforço feito no equipamento dos bombeiros.
Os dois factores anteriores estão relacionados – quanto maior a desigualdade, maior a percepção de infelicidade, pelo menos pela maioria – favorecendo o crime e o tipo menos favorável de crescimento económico. O Brasil é um exemplo da severidade das consequências desse modelo.
O crescimento económico é globalmente vantajoso, mas não podemos deixar de distinguir entre os bens positivos e os negativos que são criados no processo. Não é pois surpreendente que David Cameron, o novo líder do partido conservador britânico, proponha a substituição de GDP por GWB (General Well Being) como medida da performance da sociedade. Quais os indicadores a incluir numa medida deste tipo? Muitos são consensuais – esperança de vida, saúde da população, nível educacional e acesso a certos bens de consumo. Outros são mais polémicos, como o tempo de lazer, ou o acesso a vídeo jogos. Algumas pessoas procuram refúgio na "second life", onde talvez encontrem um modelo económico mais harmonioso, mas a nossa responsabilidade é melhorar o da vida real.


publicado por psylva às 09:39
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