Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005
>Quatro Casamentos e um Funeral
No Público foi publicado este texto bastante bem pensado. A Maria é a
>República Portuguesa. Os outros são muito conhecidos.
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>Quatro Casamentos e um Funeral
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>O António afiançara à Maria que a vida seria um mar de rosas e cheia de
>prosperidade. O casamento foi feliz e despreocupado. O António era um
>gastador compulsivo mas a Maria não queria saber nada dessas coisas de
>dinheiro. "A família não são números", proclamava o António a quem lhe
>chamava a atenção para os excessos. O que interessava era a qualidade de
>vida, as grandes festas e as aparências.
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>Quando um dia, repentinamente, o António fugiu de casa deixando apenas as
>prestações das dívidas por pagar, a Maria entrou em desespero. Estava de
>tanga. Atemorizada, casou com o Zé Manel, depois de um curto namoro.
>Afinal,
>o Zé Manel parecia ser bem mais ajuízado que o António e talvez trouxesse
>alguma ordem às finanças lá da casa.
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>Os rapazes sentiram logo algumas diferenças. As semanadas foram congeladas,
>o Zé Manel não lhes dava dinheiro para o autocarro e o discurso mudara:
>"Temos que poupar, não podemos gastar o que não temos", dizia o Zé Manel.
>Mas aquilo era só da boca para fora. Os costumes da família estavam bem
>enraízados e, no essencial, tudo continuou como no tempo do António.
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>Apesar das dívidas cada vez maiores, não se cortava na cozinha, nem nas
>férias, nem nas contas da água, da luz ou do telefone. Nunca se dizia que
>não a um livro, a um disco ou a uma ida ao cinema. Não se mexia em direitos
>adquiridos. Por vezes o gerente da Caixa telefonava, inquietado com o saldo
>do cartão de crédito. E de vez em quando vendiam algumas jóias antigas para
>acalmar os credores.
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>Até que um dia o Zé Manel anunciou que se ia embora. Arranjara um emprego
>no estrangeiro, muito bem pago. E disse à Maria: "Não te preocupes, eu vou-me
>embora mas arranjei-te marido novo. Casas-te com o Pedro. Ele cuida de ti."
>
>A Maria assim fez mas o enlace durou pouco. O Pedro era um bocado estouvado
>e tinha alguns amigos pouco recomendáveis. O pai da Maria não gostava dele
>nem um bocadinho e fez-lhe a vida negra. E um dia, o Pedro chegou a casa e
>descobriu que tinha a mala nas escadas.
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>Agora a Maria vai casar com o José. Foi o pai dela que arranjou o
>casamento. O José faz-lhe lembrar o António, de quem era muito amigo. O José propõe-se
>gerir as finanças familiares de outra maneira. Quando a Maria lhe pergunta
>como é que ele vai fazer ele explica: "É fácil, o objectivo é sermos
>felizes."
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>O José já prometeu que as semanadas das crianças vão ser aumentadas, porque
>é uma vergonha que os nossos filhos tenham menos dinheiro que os filhos dos
>outros. Vai comprar um computador lá para casa e ligá-lo à Internet, em
>banda larga. Vai haver telemóveis para todos. "É um choque tecnológico",
>explica ele. E promete à Maria, que continua a ser a única a trabalhar lá
>em casa, que não vai precisar de lhe dar nem mais um tostão. O José vai gerir
>a casa com o que tem. E daqui para a frente, quem paga o café e os cigarros é
>ele. Essa mania do consumidor-pagador já era.
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>Soa a banha da cobra mas a Maria quer marido e os bons pretendentes não
>aparecem. A família da Maria gosta do José. Parece que vem aí um tempo novo
>e os rapazes já estão fartos de más notícias. O José é recebido lá em casa
>de braços abertos.
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>As más surpresas vão começar a chegar lá para o fim da Primavera. E um dia,
>alguém vai reparar que o título desta história é "Quatro Casamentos e Um
>Funeral".
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