Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
O papel do cidadão


Muito se tem falado do papel do Estado mas talvez não suficientemente do papel do cidadão.

O papel do cidadão é o mais importante de todos, pois é o conjunto de cidadãos que deve escolher o tipo de sociedade em que pretende viver, determinando os papéis das suas principais instituições e agentes.

A globalização, uma maior escolaridade, o avanço tecnológico e a expansão das democracias têm vindo, e bem, a transformar ainda mais as nossas sociedades em sociedades de cidadãos.

No futuro, o cidadão terá cada vez mais poder para com autonomia e independência ser senhor do seu próprio destino e determinar o seu futuro, naturalmente dentro daquilo que está sob o seu controle.

Uma sociedade liberal, tenha uma governação mais à esquerda ou à direita, é aquela em que o poder está claramente repartido pelas suas várias instituições democráticas (executivas, legislativas ou judiciais) e onde também a Sociedade Civil tem múltiplas formas de expressão e de intervenção.

Estas intervenções, poderão ser individuais ou associativas, reforçando o aprofundamento de uma democracia participativa sem poderes dominantes e criando um maior valor para a sociedade pela diversificação, empenho e contributo que todos podem trazer.

Em Portugal o papel do cidadão tem que evoluir de acordo com os novos tempos, para que no futuro a nossa sociedade possa alcançar os seus objectivos últimos.

Propõem-se a seguir alguns traços fundamentais do que deverá ser o papel do cidadão, tendo em conta o enquadramento e desafios referidos.

O cidadão deve ser informado, activo, exigente e participativo.

Cada cidadão deve procurar ter uma opinião fundamentada da forma como a sociedade está organizada e procurar dar o seu contributo para a construção de uma nova sociedade, que vá para além da sua própria actividade profissional, participando portanto também em projectos colectivos.

Deve ser exigente quanto ao papel do Estado e compreender que só tem a ganhar com um Estado forte e independente, menos asfixiante e mais subsidiário, com melhor qualidade de serviço e mais eficiente. Deve ter a consciência plena de que os custos do Estado também são seus.

O cidadão deve ainda querer que a sociedade seja uma sociedade de oportunidades, mais aberta e flexível, para seu benefício próprio e dos seus descendentes.

O cidadão terá necessariamente que assumir os seus deveres, desde os deveres fiscais até aos deveres de preservação de uma sã concorrência nos mercados, passando pelos deveres já referidos de participação democrática.

Tem cada vez mais que se responsabilizar por si próprio, pela sua formação e desenvolvimento de competências, por todos os actos e atitudes que vai tomando ao longo da vida.

O cidadão não pode estar à espera do Estado, ou de uma qualquer outra organização, para resolver os seus problemas ou para ver correspondidos todos os seus desejos.

Não faz sentido que um cidadão esteja sempre a queixar-se ou a reivindicar permanentemente benefícios para si a serem pagos ou disponibilizados por outros.

A aposta do cidadão deve ser na sua valorização de forma a ter mais oportunidades e a não depender materialmente de ninguém em particular.

Se entende que o seu valor não é devidamente apreciado e as contrapartidas que possui não são as mais adequadas, então é porque decerto disporá de outras alternativas melhores que necessariamente deverá aproveitar.

O cidadão não deve ficar agarrado a uma função ou a um emprego, não só porque tal não é sustentável, nem possível no enquadramento actual, podendo ter um custo para outros, como acabará por não lhe garantir um maior retorno a médio prazo em termos da sua realização profissional e felicidade.

De tudo isto não se pode retirar que se defende uma sociedade individualista e egoísta em que cada um se tem que ”safar” por si próprio.

É ao contrário.

É o respeito que a sociedade e o colectivo deve merecer que implica que cada um procure não ser um ónus para a sociedade, mas antes dê um contributo activo para a sua dinâmica, criação de valor e qualidade, por forma a que mais riqueza (material e não só) possa ser criada em benefício de todos.

Só assim será possível garantir a existência na sociedade dos recursos e das actividades necessárias para providenciar selectivamente uma vida condigna a todos aqueles que objectivamente não a conseguirão alcançar pelos seus próprios meios.

É o respeito que cada cidadão deve merecer que implica não poder a sociedade tratá-lo como um mero número e desqualificá-lo, mas antes desenvolvê-lo, torná-lo independente, e nele apostar e acreditar.

Temos que ser uma sociedade que valoriza e responsabiliza o cidadão, que garante à partida uma igualdade de oportunidades assente numa educação de base de qualidade para todos, que está presente solidariamente sempre que tal for realmente necessário, sabendo criar oportunidades para os cidadãos, por forma a que estes se realizem pessoal e profissionalmente.

É esta nova sociedade que os cidadãos devem exigir e para a qual devem contribuir através do seu próprio papel.



publicado por psylva às 16:48
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